Aproveito a coluna de Mario Mammana para agradecer a todas as dezenas de textos que ele publicou, generosamente, em nosso blog. Obrigado.
Tentarei, nesse Blog, mostrar o que para mim é fonte de prazer. Belas Pessoas, Belos Músicos, Belos Ambientes, Belos Destinos, ou seja, o Belo, em geral, será parte integrante deste blog. Quem estiver de acordo com esses propósitos e quiser comentar alguma postagem, por favor, deixe também o seu recado.
O fenômeno lingüístico do eufemismo sempre me intrigou. Desde pequeno ouvia meus pais e tios cochichando que fulano estava com “aquela doença” ou com “a doença ruim” (existe boa?). Hoje até vice-presidente e presidenta falam abertamente na TV que tem câncer e eu prefiro a verdade nua e crua, sem rodeios e sem meneios. Ou então ouvia dizer que sicrano se “amigou” com beltrana. Como assim “se amigou”? Pensava eu. Vai ver ele convidou ela para brincar, acabava concluindo, muito perto da verdade dos fatos!
Imagine-se sendo uma velha calça jeans desbotada. Depois de algum uso e esforço você vai parar num cesto de roupa suja, com cheiros inimagináveis, é chacoalhado, ensaboado e torcido, até ser dependurado pelos fundilhos para secar. Devem ser sensações desagradáveis! Ainda bem que as roupas são objetos inanimados. Exceção feita àquelas que se escondem sozinhas quando você mais as quer usar ou as que encolhem de madrugada, dentro do armário, só para você ter a impressão de que engordou no dia seguinte! Sacanagem pura!
Alguém, em pleno gozo das funcionalidades mentais, já parou para se perguntar o que quer dizer Xopotó? Pode ser, alguns diriam, o som de um potro selvagem cavalgando sobre a pradaria verde. Xopotó, xopotó, xopotó....Pode ser ainda a designação carinhosa da cerinha da orelha do porco, ou o nome indígena para a região glútea das fêmeas (que xopotó tem a Potira hein?!). Não é nada disso. Xopotó é nome de um pequeno riacho das Minas Gerais, que o bairrismo e as reminiscências de infância de alguns fazem parecer um Danúbio. Ele nasce na vertente nordeste da Serra da Conceição, inserida nas grimpas da Mantiqueira, no município de Desterro do Melo. A partir da sua foz, essa é a mais alta e a mais distante das nascentes de todos os cursos d´água que formam a bacia do Rio Doce. Interessante.
Se jacaré que fica parado vira bolsa, como preceitua o dito popular, posso dizer que circulo bastante por aí, nos bares da cidade. Talvez até demais segundo alguns. Em minhas andanças vi um pouco de tudo, bares com nomes estranhíssimos, apenas com números, ou com trocadilhos imperdoáveis usando o nome do dono, nomes de péssimo gosto, nomes pretensiosos muito mais chiques do que o ambiente em si, inclusive bares com nome de animais. Nessa última categoria, destaco o Jacaré Grill (Rua Harmonia, 305). Pode não ser o melhor bar do mundo, da Vila Madalena e talvez nem da rua, mas quebra o galho.
Quem não se lembra? Na abertura do desenho animado “Os Flintstones” Fred tira o tigre dente de sabre de dentro de casa. Logo após é o tigre quem o expulsa e ele fica do lado de fora batendo na porta e gritando “VILMAAAA”! A imortal criação de Hanna e Barbera embalou as tardes de muito marmanjo. Incluindo euzinho. Sempre quis ter um dinossauro de estimação, ou um carro com propulsão de sola de pé. Uma vez até tive um. Era um fusca tão enferrujado que quase fica sem o piso.
Não, a ornitologia definitivamente não é a minha ciência favorita, apesar de eu gostar de pássaros e já ter sido o feliz dono de um papagaio (com carteirinha do IBAMA) chamado Juvenal, em homenagem ao imortal garçom do imorredouro Bar Riviera. Mas é justamente a ornitologia quem determina que a Juriti é designação comum às aves columbiformes da família dos columbídeos, que ocorre do sul dos Estados Unidos até a Argentina e quase todo o Brasil, em matas, capoeiras, cerrados e pomares, de até 26,5 cm. de comprimento, plumagem marrom, peito claro, cabeça cinzenta e região perioftálmica azul.
Gosto de bares que não enganam, bares de verdade, que não são caça-níqueis e que tem alma. Gosto enfim de bares bacanas. Quem não gosta?! Mais bacanas ainda se forem antigos, daqueles que já funcionam no piloto automático e adquiriram todo o “savoir faire” da noite paulistana. Daqueles, aliás, que esbanjam esse “savoir faire”. Só um dono extremamente incompetente, um néscio com MBA, é capaz de levar à bancarrota um estabelecimento comercial que dá certo há 17 anos! Ainda bem que não é este o caso do Barnaldo e Lucrécia (Rua Abílio Soares, 207). Na lida desde 1994 o simpático boteco tem motivos de sobra para continuar existindo. Primeiro porque é um bar cujo modelão é o dos bares dos anos 70 e 80, hoje raros na cidade. Segundo porque continua preocupado em oferecer sabores e sons genuinamente brasileiros, o que é mais raro ainda nesta terra de amantes do sertanejo universitário, da fast food e do hip hop (ou seria fast fod e hip hoop?).
Para quem não conhece, o México é um país verdadeiramente encantador, em todos os sentidos. Estive lá há alguns anos e me apaixonei perdidamente pela História, pelas cores, pela comida e a tequila. Sem contar que os mexicanos nos adoram. Não a toa houve recentemente um significativo aumento de casas “mexicanas” em São Paulo, tamanho é o interesse dos brasileiros pela culinária incrível daquele país, a qual tantas vezes tentei reproduzir na pilotagem do meu fogão, sem muito sucesso.
O samba amanhecer? Vai no Bixiga prá ver, recomendaria o grande Geraldo Filme. Isso nos anos 60 ou 70. Hoje o bairro, que já foi reduto do samba e berço da querida Escola de Samba Vai Vai, é um nostálgico arremedo do que já foi um dia. De seu passado de glórias, de bairro boêmio da cidade, só restaram os antigos casarões. Os bares mais famosos, Café Soçaite, Boca da Noite, já fazem parte da história. Sim, após décadas de exploração desenfreada, de especulação imobiliária, de ausência de investimentos públicos que prestigiassem o evidente destino turístico do bairro, o querido Bixiga agoniza. Mas não morre! Como dizia o poeta inglês Samuel Butler, “quem está em baixo não pode cair mais fundo”.
“Fiado é igual barba, se não cortar, cresce”, “Fiado só para maiores de 90 anos acompanhados dos pais”,“Fiado? Só em dia de feriado, que o boteco está fechado”. Quem nunca se deparou com uma dessas pérolas escrita no balcão de um bar põe o dedo aqui! Se o bar é o lugar onde a loucura é vendida em garrafas, o balcão é a sua alma. Sempre digo: Bar que se preze tem que ter balcão! E já expliquei o motivo. O balcão permite que você freqüente o bar desacompanhado, sem pagar o mico de se sentar sozinho à mesa. Simples! E o balcão ainda permite que você encha o saco do barman com suas dores de amores. Já foi um dos meus esportes prediletos! O que dizer então de um bar que é um imenso e serpenteante balcão? Sim, já dá pra notar que estou falando do famigerado “Bar Balcão” (Rua Melo Alves, 150).
Bem ali pertinho da sede do melhor time de futebol do mundo, a gloriosa Sociedade Esportiva Palmeiras, vários bares pulularam. Muitos deles para que os tifosi palestrinos comemorassem as altaneiras vitórias do Alviverde de Parque Antártica, hoje carinhosamente conhecido como porcooooooooo, entornando cerveja em quantidades maiúsculas. Até o nome do antigo estádio (que em breve dará lugar à cintilante Arena) induz ao consumo do nobre líquido. Isso porque antes que a Societá Sportiva Palestra Itália o adquirisse era um parque da cervejaria Antártica, onde no início do século passado os moçoilos de chapéu de palha iam passear com suas namoradas e beber cerveja! O local tem, pois, tradição no que diz respeito ao consumo do saudável e saboroso sub-produto da cevada.
O período jurássico dos bares de São Paulo atingiu o seu ápice por volta dos anos 40, até o início dos anos 50. Antes disso vigia a era paleozóica. Ao contrário de todos os prognósticos alguns poucos bares sobreviveram e chegaram até os dias modernos. Como sói acontecer, os sobreviventes viraram “clássicos”. Os pés sujos da época eram mal vistos, coisa de bebum, apesar de sabermos que toda a boa família de São Paulo sempre teve ao menos um bebum em suas fileiras. Hoje viraram cult.
Dá uma certa dorzinha nostálgica a gente pensar que em mil novecentos e guaraná com rolha existiam na cidade dezenas de opções de botecos com boa música brasileira, no melhor estilo um-banquinho-e-um-violão. Já tratei aqui de falar de alguns deles que bravamente resistem ao chamado dos novos tempos, aos apelos de fácil digestão do mercado brasileiro, que virou uma grande Miami musical como disse Antonio Abujamra. Mas tudo isso, tanto os botecos quanto essa enfadonha discussão, já fazem parte do século passado. Pior, do milênio passado!
Brama é considerado pelos hindus como a representação da força criadora ativa no universo. Como todos nós estamos carecas de saber, a visão de universo pelos hindus é cíclica. Depois que um universo é destruído por Shiva, Vixnuse encontra dormindo e flutuando no oceano primordial. Quando o próximo universo está para ser criado, Brama aparece montado num Lótus, que brotou do umbigode Vixnu e recria todo o universo. Até aí tudo beleza. Brahma, já com o agá incorporado, é também uma cervejaria brasileirafundada em 1888, no Rio de Janeiro, pelo suíçoJoseph Villiger, com o nome de Manufactura de Cerveja Brahma Villiger & Companhia. A Brahma é talvez a marca de cerveja mais consumida no Brasil, e a quinta cerveja mais consumida em todo o mundo, pois encontra-se disponível em mais de um milhão de pontos de venda ao redor do planetinha azul.
Você anda pelas ruas, cansado após um longo dia de trabalho e o estômago dá os primeiros roncos de fome, disfarçados pelos roncos dos motores dos automóveis engarrafados. Então você passa pelo bar da esquina e o único croquete de carne remanescente da vitrine dá uma piscada para você. Sim, ele te deu mole, ele te quer, ele está te esperando há dias. E então você ouve a trilha sonora: “el dia que me quieras”....irresistível. Você devora o combalido acepipe com a volúpia dos etíopes e vai embora. Antes de chegar em casa é o intestino quem te dá os primeiros e inconfundíveis sinais de que foi intoxicado e você ouve a trilha sonora: “adiós muchachos, compañeros de mi vida”......Corre para o trono e passa a noite lá. E dá-lhe retocolite ulcerativa e dá-lhe colonoscopia e dá-lhe imosec.
Parlamentarismo ou presidencialismo? Senna ou Piquet? Pelé ou Garrincha? Gisele Bundchen ou Juliana Paes? A cultura de exclusão que permeia o pensamento brazuca nos impõe escolhas e ardorosos debates de lado a lado. Como disse o pensador Oskar Morgenstern: “Há diferenças, e deve havê-las. Tudo menos uma paz podre; é preferível nenhuma vida”. Eu por meu turno, um fervoroso adepto do ecumenismo sem ser tucano, fico sobre o muro em várias questões. Mesmo assim desde tenra idade fiz algumas escolhas. Meu time por exemplo, ou minha opção sexual. Sempre com respeito por todas as outras. Nunca gritarei “Vai Curíntcha” e sempre preferi as maquiadas aos barbados, mas tudo deve ter lá o seu encanto. Alguns deles eu nunca conhecerei, mas também nunca irei ao Azerbaijão. Por mim tudo bem.
Através dos tempos, a esmagadora maioria dos nomes dos bares que conheci não guarda nenhuma relação com as características externas do estabelecimento e às vezes também com as internas, o que é mais grave. Um bar tem que dizer a que veio já no nome, sob pena de navegar pelos mares perigosos do estelionato etílico, fazendo uso de ardis para iludir os incautos, sedentos por boas novas e boas cervejas. Como toda a regra tem a sua exceção, esse não é o caso do bar “Canto Madalena” (Rua Medeiros de Albuquerque, 471). Ele encontra-se “cravado” justamente num canto de rua, que não poderia ser mais quina do que já é, sendo que ele não é um bar de esquina. Pelo menos não uma esquina convexa. É côncava. Não sei se me fiz entender, existem esquinas côncavas? Não importa. Esta não é a sua melhor característica.