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domingo, 2 de outubro de 2011

Mario Mammana

Aproveito a coluna de Mario Mammana para agradecer a todas as dezenas de textos que ele publicou, generosamente, em nosso blog.

Obrigado.

domingo, 25 de setembro de 2011

Mario Mammana

Mario Mammana não conseguiu mandar seu texto a tempo de publica-lo nessa semana.

domingo, 18 de setembro de 2011

Mario Mammana

Mario Mammana não conseguiu mandar seu texto a tempo de publica-lo nessa semana. Talvez, ainda esteja comemorando seu aniversário.

Parabéns !!!

domingo, 11 de setembro de 2011

Estado Interessante - por Mario Mammana

O fenômeno lingüístico do eufemismo sempre me intrigou. Desde pequeno ouvia meus pais e tios cochichando que fulano estava com “aquela doença” ou com “a doença ruim” (existe boa?). Hoje até vice-presidente e presidenta falam abertamente na TV que tem câncer e eu prefiro a verdade nua e crua, sem rodeios e sem meneios. Ou então ouvia dizer que sicrano se “amigou” com beltrana. Como assim “se amigou”? Pensava eu. Vai ver ele convidou ela para brincar, acabava concluindo, muito perto da verdade dos fatos!

Este eufemismo que nos empresta o título então, me intriga ainda mais. Que tipo de pudor havia no passado capaz de impedir alguém de dizer abertamente que uma mulher estava grávida? Era de bom tom dizer que fulana estava em “estado interessante”, ou pior, que estava com “pãozinho no forno” (avemaria!!!).

Gosto de pensar que estado interessante, para mim, pode ser qualquer outra coisa. Pode ser até um “estadão”, por exemplo. Óbvio que não falo do folhetim da família Mesquita mas sim do “Estadão Bar e Lanches” (Viaduto 9 de julho, 193). Isso é que é um estado interessante!

Para começar o papo o Estadão é o primeiro estabelecimento comercial da história da cidade a funcionar 24 horas ininterruptamente. Sim, soou redundante mas digo ininterruptamente porque já vi muito comércio com placa de 24 horas que fecha às 10 da noite e não funciona aos domingos. O Estadão funciona 24 horas mesmo! Numa cidade que se orgulha de não dormir, isso é uma cesta de 3 pontos! Aliás, dizem os cariocas que São Paulo nunca para porque não tem vagas suficientes de estacionamento. Concordo. Esta não é a característica que eu mais gosto aqui. Preferia que São Paulo fosse a cidade que não para de se divertir nunca! Fosse eu um nobre edil, proporia uma extensa baianização da cidade! Mas voltando ao assunto, o Estadão se auto intitula o “Cioran dos bares paulistanos”. Prá quem não sabe, Emile Michel Cioran (1911 - 1997) foi um importante escritor romeno que padecia da ausência de sono. Eu, que preciso de 5 horas de sono por noite, morro de inveja desse cara! Só de pensar que numa vida média de 75 anos acabamos passando 25 anos dormindo......não consigo imaginar desperdício de vida maior do que este!

Falando do que interessa, o carro chefe do Bar é nada mais nada menos do que um esfuziante, impactante, mirabolante e maravilhante sanduíche de pernil! Sim senhores, esse é um assunto muitíssimo sério! Há alguns anos um concurso de comida de boteco foi realizado para se eleger o petisco que melhor representava a cara da cidade. Ganhou o sanduíche de mortadela do Mercadão. Eu votaria, sem pestanejar, no sanduíche de pernil do Estadão!!! Por precisamente dez real é possível adentrar no reino das maravilhas culinárias, saboreando essa jóia de sanduíche muitíssmo bem recheado e temperado (com cebola, tomate e pimentão). Felicidade pura! Acompanhado de uma gelada então.....Já fechei muita noitada fazendo isso! Tem ainda as versões com queijo prato ou provolone, mas eu prefiro a versão 100% carnívora.

O cardápio ainda tem outros bons itens, mas nem sei se é necessário mencionar. Já que estamos no embalo, existem outros sanduíches (bauru da casa, americano, light) e bons pratos (picadinho, costela, carne assada, espetinhos de frango), mas registre-se que o Estadão é famoso apenas pelo sanduíche de pernil. Preferir outra coisa lá é o mesmo que ir ao Fogo de Chão para comer salada!

Para acompanhar as boas cervejinhas geladas de sempre. É só o que tenho a dizer!

Se quiser apreciar a fauna noturna da cidade, vá ao Estadão por volta das 4 ou 5 da manhã. Além do bar estar em plena atividade, com um ambiente animadíssimo composto por boêmios em fim de expediente, desocupados, prostitutas e bêbados em geral, é a melhor hora do dia para ingerir esta quantidade bestial de colesterol.

Por falar em colesterol, não se preocupe. Se você é uma pessoa trabalhadora, honesta e leal, enfim uma pessoa boa, seu colesterol só pode ser bom também!


domingo, 4 de setembro de 2011

Arame Esticado - por Mario Mammana

Imagine-se sendo uma velha calça jeans desbotada. Depois de algum uso e esforço você vai parar num cesto de roupa suja, com cheiros inimagináveis, é chacoalhado, ensaboado e torcido, até ser dependurado pelos fundilhos para secar. Devem ser sensações desagradáveis! Ainda bem que as roupas são objetos inanimados. Exceção feita àquelas que se escondem sozinhas quando você mais as quer usar ou as que encolhem de madrugada, dentro do armário, só para você ter a impressão de que engordou no dia seguinte! Sacanagem pura!

Na verdade, essa introdução esquisita é só para entrar no nosso velho assunto, porque hoje vou falar de um bar com um nome bem esquisito, chamado Bar Varal (Rua João Moura, 739).

Se você passar com muita pressa pela rua, não vai achar o bar. É uma portinha com uma imensa escadaria atrás. Tenha em mente que o boteco se situa entre o antigo endereço do Clube do Choro (ai que saudade!) e o glorioso Grupo Escolar Godofredo Furtado (entra burro e sai tarado), onde tive a honra de cursar o extinto curso primário. Lá se vão décadas mas, nossa, parece que foi terça-feira passada!

Se você achou o bar é um bom sinal. Você ainda está sóbrio. No fim da escadaria um salão escuro, com algumas fotos de ilustres na parede, um balcão ao fundo e um palco com uma pesada cortina vermelha como cenário. Com certeza o nome Varal tem uma conotação geo-pilheriosa. O bar fica literalmente dependurado no segundo andar! É isso. Mas tem muito mais!

Não estou falando dos comes e nem dos bebes. Até aí tudo muito normal. Algumas porções, filezinhos aperitivo, frios, sandubas e o trivial. Capirinhas e cervejas nacionais para debulhar a tristeza. Na verdade estou falando da música que é sempre muito boa.

Estive lá em situações bastante específicas. Primeiro quando minha querida amiga e excelentíssima cantora Thaís Duque Estrada (sim, descendente do velho Osório) foi se apresentar lá e me chamou para tocar junto com o grande Luisinho Sete Cordas. Alías ela se apresenta lá uma vez por mês. A primeira impressão do bar foi bastante positiva, não fosse o sobe e desce das escadas para ir fumar lá fora (mas isso não é culpa do bar). Se o pulmão padece, pelo menos fortalecemos as pernas!

Estive também, numa outra oportunidade, para ir ver meus diletos amigos Adílson Rodrigues, o crooner das multidões, Cláudio Duarthe, Fernando do baixo e Chico Filho nos sopros, num show em que só rolou Chico Buarque e Noel (compositores sem nenhuma importância no cenário musical brasileiro).

De uma outra feita cai de paraquedas lá num domingo e estava rolando uma ótima roda de samba gerenciada por meu amigo e ótimo violonista Paulinho Grassmann. A roda acontece todos os domingos e só eu não sabia.

Enfim, todas as vezes em que lá estive a música foi excelente, o que dá um aproveitamento de 100%! Pudera, o dono do pedaço, Dico, também é músico e fica muito transparente o fato de que ele sonhou ter esse bar por muito tempo, certamente pensando: “se um dia eu tiver um bar só vai tocar música boa”! Quem nunca pensou isso que atire o primeiro CD do Luan Santana.

Sei, por acompanhar a página do bar nas famigeradas redes sociais, que outros bons músicos e cantores se apresentam lá semanalmente. A julgar pelo que já vi, vá sem medo de ser feliz. Principalmente se você não tiver problemas com escadas estreitas. E não se preocupe em reservar mesa, afinal de contas, como dizia Webster, “no topo sempre há lugar”.

domingo, 28 de agosto de 2011

Ai meu São Xopotó! - por Mario Mammana

Alguém, em pleno gozo das funcionalidades mentais, já parou para se perguntar o que quer dizer Xopotó? Pode ser, alguns diriam, o som de um potro selvagem cavalgando sobre a pradaria verde. Xopotó, xopotó, xopotó....Pode ser ainda a designação carinhosa da cerinha da orelha do porco, ou o nome indígena para a região glútea das fêmeas (que xopotó tem a Potira hein?!). Não é nada disso. Xopotó é nome de um pequeno riacho das Minas Gerais, que o bairrismo e as reminiscências de infância de alguns fazem parecer um Danúbio. Ele nasce na vertente nordeste da Serra da Conceição, inserida nas grimpas da Mantiqueira, no município de Desterro do Melo. A partir da sua foz, essa é a mais alta e a mais distante das nascentes de todos os cursos d´água que formam a bacia do Rio Doce. Interessante.

Evidentemente (porque este é o nosso assunto), também é nome de um bar em São Paulo. O Xopotó, na Rua Dr. Fadlo Aidar, nº 136 (continuação da João Cachoeira, que termina bem em uma rua com nome de rio).

O fato é que até hoje não descobri se o Xopotó é bar ou restaurante, mesmo porque alguns estabelecimentos tem as características de ambos e se confundem. Não importa, vamos fingir que é bar!

A decoração é simples porém cuidadosa. É como se você estivesse numa casinha da praça da matriz, em São João Nepomuceno. Uma florida área externa ao fundo, com fUgão a lenha e tudo, é o melhor lugar da casa nos dias mais quentes.

A carta de cachaças, como não poderia deixar de ser numa casa mineira, é um trem doido sô! A maioria das caninhas é da região de Salinas, que está para a cachaça assim como a região de Bordeaux está para o vinho.

A comida então é boa dimais da conta. Costelinha suína com ora-pro-nóbis, tutu, angu e arroz, Galinhada mineira, Lombo com feijão tropeiro, couve e torresmo, Feijoada (todos os dias!) e os clássicos leitão a pururuca e galinha ao molho pardo, o prato que Bela Lugosi amava.

O Xopotó, para mim, tem um apelo sentimental porque foi lá onde conheci e conversei pela primeira vez com a mulher que se tornou minha patroa. Mas isso são intimidades e particularidades que não cabem aqui. O que importa é que é um lugar completamente diferente dos restaurantes mineiros da cidade, como o Consulado Mineiro por exemplo, que virou um hit há alguns anos sem tomar o cuidado de preservar a qualidade da cozinha, ou seja, no Xopotó a comida é bem feita e o acento mineiro, autentico.

Mas mesmo que você não seja muito chegado aos torresmos e costelinhas, o Xopotó ainda é um bom lugar para ir. Porque? Caus´que é um lugarzin bunitin, o povo é bem simpatiquin e tem uns trem bão prá bebe.

Quanto à simpatia, essa tem realmente de sobra. Se Otto Lara Resende de fato disse que o mineiro só é solidário no câncer, eu digo que o mineiro é solidário também à mesa do jantar, porque eu não conheço povo que empreste ao ato de se alimentar um sentimento tão maternal e aconchegante.

Tenho muitos e bons amigos mineiros e sei bem disso. Ô povo bão pra conversá! De mais a mais, se é para parafrasear alguém, prefiro o mineiro mais famoso de todos, Carlos Drummond de Andrade, que disse sobre Minas que “é o estado mais conservador da União, porém o que abriga o espírito mais livre”! E num é qui é messss....

domingo, 21 de agosto de 2011

See You Later Alligator - Por Mario Mammana

Se jacaré que fica parado vira bolsa, como preceitua o dito popular, posso dizer que circulo bastante por aí, nos bares da cidade. Talvez até demais segundo alguns. Em minhas andanças vi um pouco de tudo, bares com nomes estranhíssimos, apenas com números, ou com trocadilhos imperdoáveis usando o nome do dono, nomes de péssimo gosto, nomes pretensiosos muito mais chiques do que o ambiente em si, inclusive bares com nome de animais. Nessa última categoria, destaco o Jacaré Grill (Rua Harmonia, 305). Pode não ser o melhor bar do mundo, da Vila Madalena e talvez nem da rua, mas quebra o galho.

A decoração é espartanamente despojada e confusa, ao contrário dos produtos da Lacoste que também fazem uso do citado réptil, mas ninguém vai lá por causa dela ou por causa de qualquer outra coisa que não seja comer razoavelmente bem e tomar a cervejinha gelada de cada dia. Aliás, no quesito comida de boteco o Jacaré até se destaca. Boas porções de grelhados aperitivo, costelinha de porco e de cordeiro, bife de tira, picanha e um hamburgão bem bacana. As cervejas estão sempre geladas. Experimente os baldes de gelo com quatro cervejas dentro. A relação custo benefício agradece.

O bar tem dois ambientes distintos. O lado de dentro e o lado de fora. Eu prefiro ficar fora quando o meu querido São Pedro desliga a torneira. É do lado de fora que logo se percebe que o boteco é um excelente lugar de paquera, se é que você tem mais de 35 (ou 45, ou 55) anos. Os tigrões motorizados vão todos lá, inclusive aqueles que tem motocicletas maiores do que uma unidade da cohab. As tigresas também aparecem, lógico. Tome muito cuidado. Elas não estão lá para brincadeiras e em rio que tem...você sabe o que...jacaré nada de costas!

No passado recente o Jacaré carregava a pecha de ser um importante ponto de tráfico de drogas. Reza a lenda que o usuário ligava para o bar antes, reservava a mesa e preso sob o tampo já encontrava o seu pacotinho de pó devidamente pesado e embalado. O preço vinha na conta, com um nome disfarçado. Eu nunca vi. Mas também nunca fui usuário de cocaína, sei lá. Preciso tomar cuidado para não caluniar ninguém!

Maradonices a parte o boteco é bem razoável, apesar de já ter dobrado o cabo de seus melhores dias. Já o serviço, ah o serviço....é bem fraquinho. Mas dá para perceber que alguns garçons se esforçam em sorrir amarelo.

Além das cervejas nacionais o bar tem boas cachaças. Com o caldinho de feijão (com torresminhos) ou a lingüiça calabresa com molho de maracujá elas descem extremamente bem. Melhor ainda se acompanhadas de um papo bem furado mesmo porque, convenhamos, ninguém vai a um bar para tentar resolver a crise econômica na Europa ou a fome na África. Até onde eu sei, as pessoas vão ao bar para beber cerveja e descontrair. Isso desde os tempos do velho bardo, William Shakespeare, que disse: “Daria toda a minha fama por uma caneca de cerveja e por segurança”! Rárárá...enquanto não temos nenhuma segurança o remédio é a cerveja!


domingo, 14 de agosto de 2011

VILMAAAAAAA... - por Mario Mammana

Quem não se lembra? Na abertura do desenho animado “Os Flintstones” Fred tira o tigre dente de sabre de dentro de casa. Logo após é o tigre quem o expulsa e ele fica do lado de fora batendo na porta e gritando “VILMAAAA”! A imortal criação de Hanna e Barbera embalou as tardes de muito marmanjo. Incluindo euzinho. Sempre quis ter um dinossauro de estimação, ou um carro com propulsão de sola de pé. Uma vez até tive um. Era um fusca tão enferrujado que quase fica sem o piso.

Sonhei muitas vezes com os filés de brontossauro que Fred e Barney devoravam e este sonho também se concretizou no dia em que encontrei alguma coisa bem parecida. Evidentemente foi no Sujinho – Bisteca D´Ouro (Rua da Consolação, 2038). Um barzão na fulgurante esquina da Consolação com a Rua Maceió.

A história do Sujinho é pouco conhecida. Não se sabe exatamente se nos anos 60 ou 70, era um simples boteco que, de repente, começou a servir algumas refeições. Os apelidos da espelunca pegaram. Sujinho, por motivos óbvios (quem o conheceu nessa época sabe o porque) ou o sub-apelido “Bar das Putas”, numa singela homenagem às corajosas moças de vida fácil (hãhã!) que faziam o “trottoir” nas redondezas, perto do Cemitério da Consolação ou na famosa “casa da luz vermelha” da “Tia Olga” (lugar preferido de 11 entre 10 adolescentes da época).

O filé de brontossauro ao qual me referi acima era uma bisteca bovina gigante, de 700 gramas de carne suculenta e osso, que até hoje é o carro chefe da casa e necessita de dois garçons para traze-la à mesa. A simples visão da imensa iguaria causa um inesquecível impacto e já satisfaz. Quantas madrugadas, pós aventuras e desventuras, fui até lá matar a fome antes do sono dos justos! Uma bisteca e a saladinha de repolho! É tudo o que um homem necessita depois das 3 da manhã! Certa vez o estado alcoólico era tão desesperador que adormeci sobre a bisteca, certamente achando que era o melhor travesseiro de pena de ganso com cheiro de churrasco do mundo!

O fato é que nos anos 80 o boteco, nas mãos de novos donos portugueses, se popularizou. Nos anos seguintes uma extensa reforma transformou-o num lugar um pouco mais apresentável e duas outras filiais foram inauguradas. Mas o Sujinho (que acabou se apropriando do apelido transformando-o em nome oficial) continua tendo uma indisfarçável vocação para a madrugada. Continua sendo um destino seguro para os boêmios esfomeados de plantão!

Além da bisteca já descrita a grelha do boteco ainda produz algumas outras maravilhas. Picanha, cordeiro, espeto misto e um pintado na brasa dos deuses, tudo em tamanhos dinossáuricos, que fariam de Fred Flintstone o mais feliz dos neandertais.

Mas liberte o T. Rex que existe dentro de você e ataque de bisteca, pelo menos na primeira visita. Acredite, se eu fizesse uma lista chamada “100 pratos para devorar antes de morrer” a bisteca do Sujinho figuraria em 7º, talvez 6º lugar.

Para bebericar, as cervejas nacionais de sempre em garrafas grandes. Não me lembro de muita coisa mais porque sempre estive lá na alta madrugada, em condições que não me permitiam beber um gole sequer.

Para finalizar, volto ao assunto da reforma. Sim, o bar ficou bem mais agradável e ganhou um andar de cima. Virou um Sujinho arrumadinho. Mas sou obrigado a professar a minha inevitável admiração pelo boteco pé-sujo. O Sujinho já foi um pé-sujo autêntico, com azulejos de péssimo gosto nas paredes, chão mais gorduroso do que cabelo de galã dos anos 30 e uma churrasqueira fumacenta na entrada, Saudade! Como disse Luiz Fernando Veríssimo, boteco bom é aquele onde os ratos usam máscaras cirúrgicas e as baratas fazem passeata na porta contra as péssimas condições de higiene!


domingo, 7 de agosto de 2011

Te dá Asas - por Mario Mammana

Não, a ornitologia definitivamente não é a minha ciência favorita, apesar de eu gostar de pássaros e já ter sido o feliz dono de um papagaio (com carteirinha do IBAMA) chamado Juvenal, em homenagem ao imortal garçom do imorredouro Bar Riviera. Mas é justamente a ornitologia quem determina que a Juriti é designação comum às aves columbiformes da família dos columbídeos, que ocorre do sul dos Estados Unidos até a Argentina e quase todo o Brasil, em matas, capoeiras, cerrados e pomares, de até 26,5 cm. de comprimento, plumagem marrom, peito claro, cabeça cinzenta e região perioftálmica azul.

Já a botecologia, ciência bem mais agradável e familiar (pelo menos para este cientista aqui), determina que A Juriti (Rua Amarante, 31) é um simpaticíssimo pé-sujo que existe numa travessinha da Avenida Lins de Vasconcelos, no Cambuci, desde 1957! E digo mais, na simplória placa da porta pintada a mão, ao lado da figura do pássaro em questão, carrega o merecidíssimo título “A rainha dos aperitivos e frutos do mar”! Bacana hein?!

Por dentro o bar é de uma simplicidade de fazer Mahatma Gandhi sentir-se um Donald Trump. Mesinhas de madeira bem simples, azulejos florais amarelos típicos dos anos 60 e um balcão já meio surrado pelo tempo, mas o que importa não é o suporte e sim o que está “sobre” o balcão! Alguém já reparou em pedestal de estátua?

Vá até lá com aquela fome de anteontem e, antes de se precipitar e fazer loucuras, observe e escolha com atenção entre os 32 tipos de “aperitivos” espalhados sobre o mencionado balcão. Codorna ao alho, ostras, rãs a doré, sardinha a escabeche e um bolinho de bacalhau apimentado de “lascá o cano”! Mas deixe um espacinho para a lingüiça calabresa “Joana D´arc” que, assim como a santa heroína francesa é preparada num fogareiro a álcool, flambada, incendiada e deliciosa!

Para molhar a goela as boas cervejas nacionais de garrafa grande (é melhor e não faz mal) e um bom chopp Brahma geladaço. Ainda tem o meu bom e velho companheiro rabo de galo, ou “cock tail” como preferem os emergentes anglicistas tupiniquins e uma batida de amendoim com licor de cacau que faz com que você comece a pensar bobagens! Quem precisa de Cialis? Aliás, nos fins de semana é muito comum ver na Juriti simpáticos senhores, moradores dos arredores, tomando sua batidinha antes do almoço!

Mas, uma vez que algumas pessoas acham que só existem bons bares na Vila Olímpia ou na Vila Madalena, é bom também falar sobre o bairro que existe em volta do boteco, o qual, diga-se de passagem é simpaticíssimo! Conhecido desde o século 16, o Cambuci é um dos bairros mais antigos que se têm registro na cidade. Alguns defendem que é de fato o mais antigo. Seu nome nasceu devido à grande quantidade de cambuci, uma árvore de boa madeira e com um fruto apreciado em infusão com aguardente, que existia no local. Ou seja, o bairro já carrega no nome uma referência direta à cachaça! Nos primórdios da São Paulo de Piratininga, passava pela região de Cambuci uma trilha que dava acesso ao Caminho do Mar, utilizado por tropeiros para chegar a Santos. Aos poucos, principalmente a partir de 1850, desenvolveu-se ao redor da trilha um pequeno comércio e algumas chácaras, sítios e fazendas. No passado, a região era considerada uma divisa entre a cidade e a zona rural. O que separava essas zonas era um córrego que existiu no lugar onde hoje é a rua dos Lavapés. Todavia, hoje, o bairro virou praticamente central. Mas continua respirando e transpirando o ar de seu passado, de uma São Paulo cordial que existe menos a cada dia. É que o passado, ora o passado, como diz Millor Fernandes é apenas o futuro usado.

domingo, 31 de julho de 2011

Bacanaldo e Antiguécia - por Mario Mammana

Gosto de bares que não enganam, bares de verdade, que não são caça-níqueis e que tem alma. Gosto enfim de bares bacanas. Quem não gosta?! Mais bacanas ainda se forem antigos, daqueles que já funcionam no piloto automático e adquiriram todo o “savoir faire” da noite paulistana. Daqueles, aliás, que esbanjam esse “savoir faire”. Só um dono extremamente incompetente, um néscio com MBA, é capaz de levar à bancarrota um estabelecimento comercial que dá certo há 17 anos! Ainda bem que não é este o caso do Barnaldo e Lucrécia (Rua Abílio Soares, 207). Na lida desde 1994 o simpático boteco tem motivos de sobra para continuar existindo. Primeiro porque é um bar cujo modelão é o dos bares dos anos 70 e 80, hoje raros na cidade. Segundo porque continua preocupado em oferecer sabores e sons genuinamente brasileiros, o que é mais raro ainda nesta terra de amantes do sertanejo universitário, da fast food e do hip hop (ou seria fast fod e hip hoop?).

O bar nasceu pelas mãos de um simpático casal (Arnaldo e Lucrécia, mais conhecida como Lú e tempos depois dona do Bar da Ló, nos Jardins) que logo passou o boteco nos cobres. A decoração permanece a mesma, ou muito parecida com a do dia da inauguração, ou seja, é uma reprodução paulistana dos armazéns de secos e molhados do interior do Brasil. Pode ser do interior de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Paraná ou do Rio de Janeiro, porque o jeito é acolhedor, aconchegante, típico do Brasil de antanho.

O cardápio não foge à tipicidade da decoração. Petiscos brasileiros de estirpe inconfundível: pastéis (palmito, bacalhau, carne, queijo brie com damasco), caldinho de feijoada com torresmo, caldinho de mandioca, lingüiça dragão, mandioca frita com molho de carne moída (ui!), bolinhos de arroz, de queijo, de mandioca, bolinhos de feijoada (o que será isso meu Deus?!), sanduíches, filés aperitivo e saladas. Para entornar, cervejas (garrafas grandes) nacionais e sulamericanas, vinhos, whiskies e uma boa carta de cachaças e de caipirinhas (com destaque para as de morango com pimenta rosa e melancia com gengibre).

Nos dois andares do bar se ouve MPB ao vivo, no bom e velho estilo “um-banquinho-e-um-violão”, sempre com qualidade bem acima da média. Bons nomes já passaram por lá nos últimos anos. No andar de cima, casaizinhos trocam juras de amor à meia luz. No andar de baixo a azaração rola soltíssima e é exercitada em suas formas clássicas e consagradas, sem contra-indicações. Mas isso é mais para a garotada na faixa dos 30 e poucos anos.

Sempre que vou lá tenho a estranha sensação de voltar no tempo. A vista anuvia, o ambiente gira (depois de três cachaças então...) e parece que estou de volta aos meus 30 anos de idade (ô sodade!). Quem não se lembra daqueles barzinhos clássicos da Henrique Schaumann ou da Avenida Ibirapuera, época em que os maus filhos de famílias boas caçavam impiedosamente as meninas boas de famílias más?

O fato é que o Barnaldo fez história na noite da cidade e de certa forma ainda faz. É mais ou menos como o programa Castelo Rá-Tim-Bum, produzido no início dos anos 90 mas reprisado à exaustão anos a fio e por isso adorado por crianças de 2 a 18 anos de idade.

Pois por sobreviver assim é que o Barnaldo Lucrecia vai sobrevivendo mais ainda e atravessando as gerações, sempre com a mesma proposta e o mesmo jeitão. Parece que ele contraria a regra definida pelo grande poeta inglês Alexander Pope, que dizia: “Ano após ano rouba-nos algo todo dia...E acaba por roubar-nos de nós mesmos”!

domingo, 10 de julho de 2011

BIBA MÉRRICO - Por Mario Mammana

Para quem não conhece, o México é um país verdadeiramente encantador, em todos os sentidos. Estive lá há alguns anos e me apaixonei perdidamente pela História, pelas cores, pela comida e a tequila. Sem contar que os mexicanos nos adoram. Não a toa houve recentemente um significativo aumento de casas “mexicanas” em São Paulo, tamanho é o interesse dos brasileiros pela culinária incrível daquele país, a qual tantas vezes tentei reproduzir na pilotagem do meu fogão, sem muito sucesso.

Um dos bares/restaurantes mexicanos mais antigos da cidade é o “Viva México” (Rua Fradique Coutinho, 1.122). Na minha opinião também é um dos melhores, ou na pior das hipóteses o que reproduz mais fielmente os sabores peculiares do país colonizado por Hernan Cortez. Na lida desde 1992, o Viva México permanece até hoje do mesmo jeitinho de quando foi inaugurado. Até os garçons são os mesmos.

O ambiente do boteco é minúsculo e a decoração é obviamente típica. Sombreros, bandeirolas coloridas, garrafas de tequila nas prateleiras e fotos dos grandes vultos mexicanos da história nas paredes. Venustiano Carranza, Porfírio Dias, Francisco Madero, Álvaro Obregón e porque não os heróis da revolução mexicana de 1910, Pancho Villa e Emiliano Zapata (interpretado nas telas por Marlon Brando), estão todos lá. No terreno das artes, algumas reproduções e fotos de Diego Rivera, Davi Siqueiros, Rufino Tamayo e Frida Kahlo, minha preferida!

A cozinha, se não dá vontade de aplaudir de pé, também não é de se vaiar. É evidente que todo restaurante de comida temática nunca consegue reproduzir fielmente os pratos do país de origem. Os vegetais são diferentes, as carnes tem outro sabor, os temperos, as ervas...etc. Mesmo assim, o Viva México procura, dentro das possibilidades, ser o mais fiel possível. Não espere encontrar lá a comida “tex-mex” (texas/méxico), com as tortillas douradinhas e fritas. Não. As tortillas de lá são iguais às do país mãe, moles e na chapa. E são deliciosas!

Na Cidade do México a comida de rua é um patrimônio cultural. São milhares de “taquerias” espalhadas pela imensa cidade. Bibocas meio sujas, com a carne girando no espeto vertical, banhada em pimenta vermelha ou jalapeño, igualzinha ao nosso churrasquinho grego. Há que ter a coragem de Montezuma para comer um taco nesses lugares. Pois o Viva México pretende ser uma taqueria. Mas na verdade não é. O país sede, através das importantíssimas culturas azteca e maia, legou ao mundo a pimenta, o chocolate e o milho (é pouco?). Com esses três ingredientes (e mais alguns) é possível criar maravilhas. Experimente no Viva México, por exemplo, o taco a la parrilla (para duas pessoas), chili com carne ou o frijole (feijão) refrito. Excelentes! Mas existem muitos outros pratos e antojitos (aperitivos) no cardápio. Burritos (uma espécie de caneloni mexicano), fajitas (tiras de carne com vegetais), quesadillas e tantos mais! Só tome muuuuito cuidado com as pimentas. No México passei indescritíveis apuros por causa dela. No Viva México não é muito diferente. Quem tem gastrite ou outros problemas vasculares mais ao sul, é prudente evitar. Mas como diz o velho adágio, passarinho que come pedra.....

Para beber, algumas boas cervejas mexicanas como por exemplo a excelente “Dos Équis” (dois X), minha preferida, e as margaritas (marGUErita é pizza pô!!!), frozen ou tradicional. Para os mais corajosos, boas tequilas e mezcal, mas isso é bebida pra gente grande, sem filhos e sem apego à vida.

De vez em quando aparece por lá um trio de mariachis, todos com a inconfundível cara de bolivianos ou peruanos. Evite também. É muito ruim e nem de longe parecida com a verdadeira música mexicana. Isso porque existem poucos mexicanos de verdade no Brasil. Eles preferem se aventurar na fronteira mais ao norte e, invariavelmente, se dão muito mal. Como disse o político Porfírio Diaz, “pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”!

Para quem já conhece e gosta de comida mexicana, o Viva México é “o” lugar. Para quem nunca se aventurou, também. Mas repito o alerta. Tenha sempre em mente a frase do sábio brasileiro Érico Veríssimo que diz que “a alma mexicana pode comparar-se a uma lavoura de milho de aparência tranqüila. Mas cuidado, forasteiro! A qualquer momento a roça pode explodir num vulcão sem aviso prévio e toda a contida e ardente lava brotará com fúria mudando por completo, em poucos minutos, a paisagem em torno”. Por “ardente lava” entenda-se “pimenta”!

domingo, 3 de julho de 2011

Quem Nunca Viu ..... - por Mario Mammana

O samba amanhecer? Vai no Bixiga prá ver, recomendaria o grande Geraldo Filme. Isso nos anos 60 ou 70. Hoje o bairro, que já foi reduto do samba e berço da querida Escola de Samba Vai Vai, é um nostálgico arremedo do que já foi um dia. De seu passado de glórias, de bairro boêmio da cidade, só restaram os antigos casarões. Os bares mais famosos, Café Soçaite, Boca da Noite, já fazem parte da história. Sim, após décadas de exploração desenfreada, de especulação imobiliária, de ausência de investimentos públicos que prestigiassem o evidente destino turístico do bairro, o querido Bixiga agoniza. Mas não morre! Como dizia o poeta inglês Samuel Butler, “quem está em baixo não pode cair mais fundo”.

Apenas um bar decente restou, para representar o inebriante passado da velha ladeira da Treze de Maio. É o Café Piu Piu (Rua Treze de Maio, 134). E continua pulsante desde a inauguração em 1983, em plena e agitada atividade, quase todos os dias da semana, com um público mais fiel do que um labrador abandonado!

Ao chegar na entrada temos a impressão de que é um lugar pequeno, mas após a primeira e única porta, um vasto salão se abre, com mezanino e tudo. O ambiente é escuro, como convém a uma casa de shows, mas a decoração (que não muda há muitos anos) é bacana e aconchegante. Um bar enorme, com muitas garrafas dispostas na estante iluminada (bacana), janelões com vitrais, mesas com tampo de mármore, é no mínimo um lugar diferente.

No departamento comes e bebes não foge muito do normalzão. O clássico dos clássicos provolonão à milanesa está lá! Ainda tem o tal de “latke”, que é um bolinho frito de batata ralada, escondidinhos, beirutes, sanduíches e bruschettas, mas fala sério, com a profusão de cantinas na vizinhança (algumas ainda boas), você não vai cometer o desatino de ir lá para jantar! Para beber, o-bom-e-velho-chopp-Brahma, cervejas long neck (para mim long neck é girafa), Pina Colada, Cuba Libre e caipirinhas. Pronto, é o que há de destaque.

Como acontece com vários bares aqui tratados, o forte da casa é a música ao vivo. Em seu enorme (para um bar) e super bem localizado palco já passou (e ainda passa) muita gente bacana. Mônica Salmaso em comecinho de carreira, Vanessa da Mata idem,....e tantas outras vozes hoje Globais! Lembro-me com nostalgia dos tempos em que a excelente banda de gafieira CometaGafi, dos meus amigos Adilson Rodrigues, Cláudio Duarthe e troupe, se apresentava lá um domingo por mês. Era sensacional. Hoje, a programação é variadíssima, para gregos e troianos, mouros e cristianos. Nas quartas tem de tudo, fado, jazz, etc, etc, com boas bandas em geral desconhecidas. Às quintas, sextas e sábados, classicões do rock para nós, os dinossauros que ainda lamentam que já não se fazem mais bandas como Led Zeppelin, Uriah Heep, Pink Floid, The Doors, Beatles/Rolling Stones, Deep Purple e outras tantas mais! Aos domingos a programação é variada e geralmente boa, com shows e eventos de escolas de música. No geral é tudo muito interessante.

Para finalizar, há alguns anos ouvi da boca da dona do Piu Piu uma história curiosíssima. Numa pequena reforma do bar descobriram que no subsolo há, intocado, um teatro antigo (do século 19 provavelmente), que nem os historiadores do bairro sabiam que existia. Na época a idéia era conseguir um patrocínio para restaurar, preservar e recuperar o teatro para shows, colocando no Piu Piu um chão de vidro (bem resistente evidentemente), para que as pessoas pudessem ver o teatro iluminado sob seus pés. Seria simplesmente maravilhoso se isso acontecesse! Porém, como eu nunca mais ouvi falar do assunto, acho que o patrocínio não veio, as autoridades não se interessaram (como de costume) e o projeto se perdeu. Mas o teatro, espero, ainda está lá!!! Pena que ninguém mais dá importância a isso! Pena!!!

domingo, 26 de junho de 2011

Fiado Só Amanhã - por Mario Mammana

“Fiado é igual barba, se não cortar, cresce”, “Fiado só para maiores de 90 anos acompanhados dos pais”,“Fiado? Só em dia de feriado, que o boteco está fechado”. Quem nunca se deparou com uma dessas pérolas escrita no balcão de um bar põe o dedo aqui! Se o bar é o lugar onde a loucura é vendida em garrafas, o balcão é a sua alma. Sempre digo: Bar que se preze tem que ter balcão! E já expliquei o motivo. O balcão permite que você freqüente o bar desacompanhado, sem pagar o mico de se sentar sozinho à mesa. Simples! E o balcão ainda permite que você encha o saco do barman com suas dores de amores. Já foi um dos meus esportes prediletos! O que dizer então de um bar que é um imenso e serpenteante balcão? Sim, já dá pra notar que estou falando do famigerado “Bar Balcão” (Rua Melo Alves, 150).

Há mais de 15 anos ele sobrevive em pleno “jardins”, o que já é um feito notável. Isso porque é um bar pra lá de sofisticado e original. Como eu já havia adiantado, o bar é um balcão de 25 metros, com banquetas dos dois lados (idéia ótima!). A decoração é bacanérrima, com direito a uma tela autêntica do maior expoente da pop art americana, Roy Lichtenstein!

Da pequena cozinha, nada de muito substancioso ou original. Algumas opções de sanduíches no pão ciabata e só, pelo que eu me lembre. Para beber, boas caipirinhas e uma carta de vinhos de respeito, como convém a um bar chique dos jardins. Nada de chopeira e cachaças de estirpe. Isso porque ninguém vai lá com a séria e deliberada intenção de matar a fome ou de beber até cair. O propósito do bar, e isso salta aos olhos já na primeira impressão, é de que é um lugar para solitários com vontade de bater papo furado, ou um papo cabeça, dependendo de quem você conhecer lá.

O que ocorre é que essa história de um balcão com banquetas dos dois lados vai jogá-lo cara a cara com alguém que você nunca viu antes e isso é algo interessante. Ou pode ser um desastre. É uma questão de sorte! Dificilmente você se sentará frente a frente com uma moça que é a cara da Jéssica Biel, com o corpo da Juliana Paes, louca para beijar (e otras cositas más) o primeiro zé ruela que aparecer. Mas quando eu era solteiro (que isso fique bem claro) pude observar que as freqüentadoras são bem bonitas e interessantes.

Já li em algum lugar que o bar é freqüentado por gente “antenada”. Nunca vi um marciano e nem um híbrido de ser humano com formiga que justificasse as antenas, mesmo porque esse é um termo típico de críticos de jornais “antenados”. São pessoas no máximo “descoladas” (outro termo horroroso! Descoladas de que, meu Deus???!!!).
O que importa na verdade é que o bar é uma elegia à paquera e a paquera é a aquarela do amor! Mas é uma paquera em alto estilo, no nível “jardins”. Portanto recomenda-se trajes bacanas e um papo interessante, sem ser muito intelectual ou enfadonho. Não comente futebol e nem assovie um pagode sob pena de ser expulso. Tenha sempre em mente que na sua frente poderá estar sentada a mulher da sua vida, nem que seja por uma noite, e que ela deve ser, sim, uma moça inteligente, culta e viajada além de Miami ou Orlando.

Vá disposto, portanto, a praticar aquele outro esporte inventado pelos britânicos chamado “flirt”, aportuguesado para “flerte” (mais interessante do que o futebol e olha que eu adoro futebol). Por fim, lembre-se sempre da lição do grande Oscar Wilde que dizia que “a única diferença entre um flerte e uma paixão eterna é a de que um flerte dura um pouquinho mais”.

domingo, 19 de junho de 2011

BÄR DES DEUTSCHEN - Mario Mammana

Bem ali pertinho da sede do melhor time de futebol do mundo, a gloriosa Sociedade Esportiva Palmeiras, vários bares pulularam. Muitos deles para que os tifosi palestrinos comemorassem as altaneiras vitórias do Alviverde de Parque Antártica, hoje carinhosamente conhecido como porcooooooooo, entornando cerveja em quantidades maiúsculas. Até o nome do antigo estádio (que em breve dará lugar à cintilante Arena) induz ao consumo do nobre líquido. Isso porque antes que a Societá Sportiva Palestra Itália o adquirisse era um parque da cervejaria Antártica, onde no início do século passado os moçoilos de chapéu de palha iam passear com suas namoradas e beber cerveja! O local tem, pois, tradição no que diz respeito ao consumo do saudável e saboroso sub-produto da cevada.

Já bem mais tarde, em 1968, tempos da inesquecível academia de Ademir da Guia e Dudu, surgiu ali ao lado o Bar do Alemão (Avenida Antártica, 554). E já nasceu com uma iniludível vocação para perdurar no tempo.

Desde os primórdios o bar teve uma decoração bávara. Ela foi mantida até hoje. Dá a impressão de que Joseph Mengele vai entrar pela porta a qualquer momento e pedir um chopp e um salsichão geneticamente modificado. O ambiente é pequeno, com poucas mesas e tem um mezanino menor ainda. Mas é aconchegante.

O chopp sempre foi bom e para acompanhar peço sempre uma porção de canapés bem interessante. Mas tem também um bom churrasquinho (sanduíche), salsichões, omeletes e boas comidinhas alemãs. Já a música ao vivo, não tem nada de alemã! (meno male).

Segundo o economista e bandolinista Luís Nassif e minha amiga Roberta Valente, excelente percussionista e pesquisadora de texto impecável, o primeiro dono do Alemão, Murilo, fechava o bar oito da noite e depois disso só entrava quem era músico. O próximo dono, o pandeirista Dagô, elevou definitivamente o boteco ao patamar de reduto de boa música. Em suas mesas estiveram Cartola, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola e Paulo César Pinheiro. É brincadeira?!

Hoje um dos donos é nada mais nada menos do que Eduardo Gudin, na minha opinião um dos principais representantes do genuíno samba paulistano e compositor inspiradíssimo. Garantia de que o bar tenha boa música todas as noites. E tem. Além das aguardadas e celebradas canjas de Gudin, o lendário percussionista Jorginho Cebion, o ótimo violonista da noite Valdo, Henrique ao cavaquinho e bandolim, a maravilhosa cantora Dona Inah, a pequena/grande percussionista Kika, o violão de Serginho Arruda e muitos outros mais estão sempre por lá, na mesa redonda ao centro do bar, cuja foto já foi até capa de disco do dono em priscas eras. Boêmia em estado puro! Quem conhece esses nomes sabe do que estou falando. Isso faz com que o clima reinante no bar, todas as noites da semana, seja de permanente festa, de roda de samba da melhor qualidade, salvo algumas raras e inexpressivas exceções.

Falando nisso, como todos os bares da cidade, o Bar do Alemão tem um probleminha: A quantidade de chatos que freqüenta o lugar é insalubremente excessiva e uma vez que o bar é pequeno a chatice se eleva à enésima potência. Tem tanta mala que parece o depósito da Le Postiche. Mas convenhamos, num honesto exercício de auto-crítica é forçoso reconhecer que todos nós temos um chatão morando aqui dentro (esse meu papinho mesmo é muito chato) e como dizia Guilherme Figueiredo no genial livro Tratado Geral dos Chatos, “todo indivíduo tem o chato que merece. É impossível chatear o chato. Dois chatos da mesma espécie não se chateiam”.

domingo, 12 de junho de 2011

Jurassic Park - por Mario Mammana

O período jurássico dos bares de São Paulo atingiu o seu ápice por volta dos anos 40, até o início dos anos 50. Antes disso vigia a era paleozóica. Ao contrário de todos os prognósticos alguns poucos bares sobreviveram e chegaram até os dias modernos. Como sói acontecer, os sobreviventes viraram “clássicos”. Os pés sujos da época eram mal vistos, coisa de bebum, apesar de sabermos que toda a boa família de São Paulo sempre teve ao menos um bebum em suas fileiras. Hoje viraram cult.

Os bares “chiques” vieram para suprir essa lacuna. Sem o menor medo de cometer um engano, o bar classudo mais importante que sobreviveu (a duras penas) foi o Pandoro (Avenida Cidade Jardim, 60). A tradução literal do nome seria “pão de ouro” mas o estabelecimento, curiosamente, nunca foi uma padaria e nunca serviu pão.

Fundado em 1953 o barzão atingiu seu ápice nos anos 60 e 70, quando os filhos das boas famílias o freqüentavam, após o habitual rolê na Rua Augusta, com seus possantes opalas e dodges charger RT ou suas reluzentes Hondas CB 750 four. Sim senhores, esse hábito incompreensível de rodar por aí, sem nenhum objetivo, apenas para exibir carros ou motocicletas, esbanjar inutilmente a preciosa gasolina, fritar pneus em arrancadas e poluir o planeta não é uma novidade entre os paulistanos. A cidade sempre teve uma inequívoca vocação para andar motorizada. Mais incompreensível do que isto considero apenas o hábito de ir ao aeroporto de Congonhas para ver, do terraço, aviões decolando e pousando. Até hoje isso acontece em Guarulhos. Que falta nos faz a praia!

Voltando ao assunto, nos anos 90 e início do novo século o Pandoro experimentou uma inevitável decadência, na mesma proporção da derrocada das fortunas dos que o freqüentavam. Chegou mesmo a falecer e ser enterrado por dois anos, ressurgindo de cara nova em 2008 nas mãos de novos donos. Mas a alma e os fantasmas, dizem, permaneceram. O bar espelhado continua lá e o lendário (e provavelmente septuagenário) barman Gulhermino também. De suas trêmulas mãos sai o drinque que se tornou o carro chefe da casa: o “Caju Amigo” (que após três ou quatro doses se transforma rapidamente no seu pior inimigo). Exaustivamente copiado e nunca superado o clássico drinque leva uma mistura de vodca (bebida da moda em tempos de guerra fria), açúcar, gelo, suco de cajú concentrado e uma compota de caju morto estranhíssima de se ver (parece o feto de algum animalzinho, nem olhe muito). Além disso duas gotinhas de um componente secreto cuja fórmula morrerá com Guilhermino (pó de pirlinpinpin hidratado ou quiçá o suco de abóbora do Harry Potter). Nem Hercule Poirot descobriria.

Mas tem mais. Um bom chopp Brahma, algumas porções, coxinhas creme, mais de 110 marcas de wiskhy, drinks, pasteizinhos, salgadinhos, empanada de estrogonofe, lingüiça de cordeiro e cervejas nacionais e importadas fazem a alegria dos playboy/boêmios de plantão. A casa possui janelões de vidro no estilo aquário, poltronas "chiques" para bundas mais ainda e móveis garimpados de antiquários, além de um belo jardim com paisagismo típico da década de 50, ou seja, de quando a cidade ainda tinha paisagem. As paredes são decoradas com 78 caricaturas de seus clientes, o que para mim soa como um catálogo do programa do Amaury Puxasaco Júnior.

No mais, o Pandoro voltou a ser o que sempre foi, um ultimate fighting da paquera para cinquentões e sessentões descasados (os mesmos que freqüentavam a Rua Augusta nos anos 70) que hoje estacionam suas harleys e seus jaguares em frente ao bar e ficam horas discorrendo sobre o carburador XYZ enquanto disparam olhares tipo tigrão-um-ponto-oito para as gatinhas quarentonas ao lado. Já foram endinheirados. Ou ainda são, sei lá. Mas a esse respeito termino citando o intelectual inglês Maurice Baring que dizia que “se quiserdes saber o que Deus pensa do dinheiro, é só olhar a quem ele o dá”.

domingo, 5 de junho de 2011

Guaraná com Rolha - por Mario Mammana

Dá uma certa dorzinha nostálgica a gente pensar que em mil novecentos e guaraná com rolha existiam na cidade dezenas de opções de botecos com boa música brasileira, no melhor estilo um-banquinho-e-um-violão. Já tratei aqui de falar de alguns deles que bravamente resistem ao chamado dos novos tempos, aos apelos de fácil digestão do mercado brasileiro, que virou uma grande Miami musical como disse Antonio Abujamra. Mas tudo isso, tanto os botecos quanto essa enfadonha discussão, já fazem parte do século passado. Pior, do milênio passado!

O que nos resta é engolir a almôndega estragada dos bares de música sertaneja, de pagode e de música eletrônica. Apenas isto nos restou. Antes não tivesse restado nada! Mas durante o tempo em que torcemos e aguardamos pacientemente pela derrocada e ostracismo inexorável do pagode e da música sertaneja, comemorando ruidosamente cada cd vendido a menos, ainda temos alguns poucos lugares para ouvir um pouco de música de verdade. Um desses lugares não é bem um boteco. Pelo menos por fora não parece. Nem placa, nem nada em sua fachada indica que ali dentro funciona um bom reduto de música de qualidade. Toca-se uma campainha e um mundo se abre. Na verdade é um clube. O “Julinho Clube” (Rua Mourato Coelho, 585).

Conheci Julinho Camargo quando ainda era um dos bons músicos do lendário bar Boca da Noite, no Bixiga, revezando o palco com Filó Machado, Elton e a grande cantora Maria Marta. Depois ele abriu um bom bar de música na Rua Pinheiros: o extinto Bartitura. De alguns anos pra cá Julinho e alguns poucos amigos, em sistema de mutirão, reformaram uma velha casa e abriram o clube. E faz sucesso! Principalmente às quintas-feiras quando no espaço se reúne o Clube da Boemia!

Recentemente lá estive para ir ver um show do excelente cantor e compositor Lula Barbosa (aquele do “Mira Ira” no festival da Globo dos anos 80), que infelizmente poucos conhecem. Tive a melhor das impressões. Ambiente aconchegante, escuro e com velas acesas nas mesas, um pequeno mas bem achado palco, atendimento simpático conduzido por moças bonitas, cervejas geladas, algumas boas porções (pastéis, por exemplo) e boa música. Sim, a velha fórmula ainda funciona, por mais antiquada que pareça.

Não teria muito mais a falar sobre cardápio, marcas de cerveja, acepipes e congêneres mesmo porque só estive lá uma vez e sem fome (mas com alguma sede). Posso falar, isso sim, que o lugar é despretensiosamente nostálgico e tranqüilo. Impossível entrar lá sem receber uma lufada de memórias agradáveis de outros tantos lugares bacanas do nosso passado, de bares que não existem mais (eu teria dezenas para citar) e, sem querer ser repetitivo, de excelente música. Aqueles que tem RG abaixo de 12.000, como eu, sabem bem sobre o que estou falando.

Como detalhe adicional, na parede do palco existe um painel que é réplica fiel do desenho da parede do já mencionado Boca da Noite, com a representação gráfica dos grandes nomes da música brasileira. Ver isso ocasiona uma lágrima furtiva e insistente no canto do olho.

Pedi licença ao Julinho para falar de seu espaço aqui (que ele gentilmente concedeu) porque o lugar não pretende escancarar suas portas e virar mais um botequinho de Vila Madalena. Então, recomenda-se um certo segredo, falar baixinho para que as hostes bárbaras não nos escutem e para que o lugar continue sendo o que genuinamente é: simpático, tranquilo e aconchegante. E para falar de simpatia, vale lembrar a lição do grande prosador espanhol Baltasar Gracián que disse que “a simpatia consiste num parentesco de corações e a antipatia num divórcio de vontades”.


domingo, 29 de maio de 2011

A Divindade da Cerveja - por Mario Mammana

Brama é considerado pelos hindus como a representação da força criadora ativa no universo. Como todos nós estamos carecas de saber, a visão de universo pelos hindus é cíclica. Depois que um universo é destruído por Shiva, Vixnuse encontra dormindo e flutuando no oceano primordial. Quando o próximo universo está para ser criado, Brama aparece montado num Lótus, que brotou do umbigode Vixnu e recria todo o universo. Até aí tudo beleza. Brahma, já com o agá incorporado, é também uma cervejaria brasileirafundada em 1888, no Rio de Janeiro, pelo suíçoJoseph Villiger, com o nome de Manufactura de Cerveja Brahma Villiger & Companhia. A Brahma é talvez a marca de cerveja mais consumida no Brasil, e a quinta cerveja mais consumida em todo o mundo, pois encontra-se disponível em mais de um milhão de pontos de venda ao redor do planetinha azul.

No rebote da cerveja surgiu, no longíquo ano de 1948, o incrível Bar Brahma (avenida São João, 677), localizado na esquina mais famosa da cidade (com a Av. Ipiranga), alguns anos depois imortalizada na letra da Caetano Veloso, que compôs “Sampa” na cola da “Ronda” de Paulo Vanzolini. Como se sabe, Vanzolini não gostou muito da “citação” mas, pelejas autorais à parte, o Bar é um luxo só! Aos nativos da Paulicéia que não o conhecem, recomendo uma visita urgente sob pena de expatriação. Não conhecê-lo é o mesmo que ser parisiense sem nunca ter ido à Torre Eiffel, ser newyorker e nunca ter subido aos píncaros do Empire State, ser carioca e nunca ter levado uma bala perdida, ainda que de raspão!

O fato é que o imenso barzão passou por inúmeras fases durante sua longa existência. Glamour e derrocada. Glória e ostracismo. Chegou mesmo a ter as portas cerradas por dois ou três anos. Ressurgiu há poucos anos nas mãos de novos e endinheirados proprietários. E ressurgiu para assumir sua evidente aptidão de se tornar ponto turístico, o que não lhe diminui o brilho. Exceto quando um ônibus de barulhentos turistas para na porta e a chusma invade impiedosa e rapidamente o ambiente.

Tirando a segunda-feira, tem almoço todos os dias (pratos razoáveis) e a noite, algumas porções para acompanhar o bom chopp homônimo, além de massas, carnes, canapés, sanduíches, etc....mas esqueça tudo isso. O melhor do Brahma não está no cardápio. Está em seus quatro ambientes distintos: salão principal, a varanda, o Brahminha e a Esquina da MPB, todos eles com extenso e variado cardápio de música ao vivo. Esta é a verdadeira vocação do bar! E o cardápio musical é extenso. Além de bons shows de “stand up comedy” (que no Brasil há décadas já eram feitos de forma bem melhor por José Vasconcelos ou Juca Chaves, sem esse nome, mas que a macacada acha que é novidade importada dos states), diariamente se apresentam vários cantores e cantoras desconhecidos do público (a maioria muito bons). Ainda tem de quebra shows de grupos tradicionais da cidade, como Originais do Samba e Demônios da Garoa (às terças-feiras). Mas nada em São Paulo se compara ao que acontece no bar todas as segundas-feiras a noite. Um showzaço do maravilhoso, cintilante e esticadíssimo Cauby Peixoto que, do alto de seus exatos 80 anos de idade e 82 de carreira, ainda dispara com extrema e inacreditável competência sucessos como Blue Gardênia, Ne Me Quites Pas e a indefectível e inolvidável Conceição! Sensacional!

No mais, o que o bar oferece é uma decoração simples, porém aconchegante e bem classuda no salão principal. Os preços são razoáveis mas, depois de algumas doses, como diria o velho Cauby, “se subiu, ninguém sabe, ninguém viu”!

domingo, 22 de maio de 2011

El Dia Que Me Quieras - por Mario Mammana

Você anda pelas ruas, cansado após um longo dia de trabalho e o estômago dá os primeiros roncos de fome, disfarçados pelos roncos dos motores dos automóveis engarrafados. Então você passa pelo bar da esquina e o único croquete de carne remanescente da vitrine dá uma piscada para você. Sim, ele te deu mole, ele te quer, ele está te esperando há dias. E então você ouve a trilha sonora: “el dia que me quieras”....irresistível. Você devora o combalido acepipe com a volúpia dos etíopes e vai embora. Antes de chegar em casa é o intestino quem te dá os primeiros e inconfundíveis sinais de que foi intoxicado e você ouve a trilha sonora: “adiós muchachos, compañeros de mi vida”......Corre para o trono e passa a noite lá. E dá-lhe retocolite ulcerativa e dá-lhe colonoscopia e dá-lhe imosec.

Essa lamentável cena nunca aconteceria se o bar em questão fosse, por exemplo, o “Empanadas” (Rua Wisard, 489). Lá, deliciosas e saudáveis empanadas o aguardam em sortidos sabores: carne, frango, palmito, carne-seca, roquefort....mas seja tradicionalista e prefira as de carne. Elas não param de sair do forno, sempre fresquinhas e bem quentes. Para acompanhar, cervejas trincando de geladas. Essa combinação pelando e trincando é o que de melhor a casa tem a oferecer, mas existem outros pratos, sanduíches e porções que nem vou levar em consideração.

Em 1980 a Vila Madalena ainda era apenas um reduto de moradores interioranos, artesãos de calçada, bicho-grilos desocupados em geral, estudantes da USP expulsos do CRUSP, atrás dos aluguéis baratos e cineastas com muitas idéias na cabeça e nenhuma câmera à disposição para registrá-las. Nessa época, cartunistas como Angeli ou o falecido e genial Glauco teriam inspiração para criar outros tantos personagens espetaculares, tamanha a diversidade e excentricidade dos nativos. Foi nesse glorioso ano-de-nosso-senhor que o Empanadas veio à luz, fruto da sociedade improvável entre um argentino e um chileno. Sim, porque o que este país tem de bom é que judeus freqüentam a casa de árabes e chineses fazem churrasco para coreanos e japoneses, todos bebendo muita cerveja e convivendo na maior harmonia, independentemente da pinimba que esteja ocorrendo em suas respectivas terras-mãe.

No início era apenas uma portinha e era possível encontrar lá os já mencionados cineastas frustrados discutindo veementemente o último Godard ou Antonioni. Hoje o boteco virou um master/blaster barzão e todas as tribos o freqüentam, de engravatados a rastafaris, de tatuados a patricinhas e, porque não, os neo-bicho-grilos ainda desocupados. E o comando passou para quatro novos sócios, três deles antigos garçons do estabelecimento.

Para mim o Empanadas tem um valor nostálgico e gastronomicamente inovador. Nostálgico porque foi um dos primeiros botecos que freqüentei e inovador porque descortinou um vasto universo de novidades portenhas e me ensinou que Buenos Aires é uma cidade sensacional e que os “hermanos” argentinos são sim caras legais, apesar das piadinhas infames que alguns contam sobre eles. Mas talvez as piadas sejam apenas uma forma de reverenciá-los. Só porque eles sabem fazer churrasco, fazem grandes vinhos, tem mulheres lindíssimas e de vez em sempre nos aplicam vergonhosas sovas no futebol. Só por causa disso! Ah, e produziram gente do calibre de Astor Piazzola, Borges, Maradona e Messi. Só por causa disso!

Mesmo assim, termino contando aquela passagem verdadeira (não é piada) em que um argentino pegou um táxi e foi para uma colina nos arredores de Buenos Aires. Desceu do táxi e ficou horas olhando para a cidade, sem dizer palavra. Até que o taxista perguntou o que faziam ali e ele respondeu dizendo que só queria ver como a cidade se virava sem ele!


domingo, 15 de maio de 2011

O Bar e o Botequim - por Mario Mammana

Parlamentarismo ou presidencialismo? Senna ou Piquet? Pelé ou Garrincha? Gisele Bundchen ou Juliana Paes? A cultura de exclusão que permeia o pensamento brazuca nos impõe escolhas e ardorosos debates de lado a lado. Como disse o pensador Oskar Morgenstern: “Há diferenças, e deve havê-las. Tudo menos uma paz podre; é preferível nenhuma vida”. Eu por meu turno, um fervoroso adepto do ecumenismo sem ser tucano, fico sobre o muro em várias questões. Mesmo assim desde tenra idade fiz algumas escolhas. Meu time por exemplo, ou minha opção sexual. Sempre com respeito por todas as outras. Nunca gritarei “Vai Curíntcha” e sempre preferi as maquiadas aos barbados, mas tudo deve ter lá o seu encanto. Alguns deles eu nunca conhecerei, mas também nunca irei ao Azerbaijão. Por mim tudo bem.

Há até quem encontre diferenças entre o que é bar e o que é botequim e tome partido de um ou outro. Em minhas pesquisas na internet descobri que são diferenças até que plausíveis, sem que isso me comova a vestir qualquer camisa. Alguns entendem que é possível levar a namorada num bar, mas nunca a um botequim. No bar geralmente há dois banheiros, masculino e feminino, e às vezes são limpos. No botequim tem um banheiro só, fechado a chave, sendo que o ambiente, no mais das vezes, é um grande condomínio de bactérias com piscina (a piscina delas). Um ambiente, como dizia Luis Fernando Veríssimo, que os ratos só freqüentam usando máscaras cirúrgicas. Outra diferença, que resvala um pouco no preconceito, é que no bar o cardápio é melhor, a decoração é mais apurada e as pessoas, geralmente bem vestidas, vão em busca de paquera ou boas conversas. No botequim, o tio do carreto bebe Pitú até cair pendurado no balcão, lançando impropérios a granel às moças casadoiras que inadvertidamente passam pela calçada. E sempre tem ovo colorido e uma mesinha de bilhar com o pano rasgado. Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Existe, nesse intervalo, uma zona cinzenta desmilitarizada. Botequins com alma de bar e, em muito maior número, bares com vocação inequívoca para botequim. O melhor deles, na minha opinião, é o Sabiá (Rua Purpurina, 370). Um bar de esquina com um indefectível ar de botequim paulistano, com chão de lajotas avermelhadas, azulejos brancos nas paredes, janelas vastas e um grande balcão, onde no passado funcionou uma padaria de muitos anos de sucesso. A freqüência, como não poderia deixar de ser, é de gente bacana e bonita, no melhor e legítimo estilo vilamadaleniano. Os donos sabem o que fazem. Stê e Léo, também proprietários do sensacional Ó do Borogodó (já contemplado aqui) e meu amigo Fernando Szegeri, companheiro de letras, lides forenses e rodas de samba.

A ditadura Frozô-Kassabiana imposta por nosso alcaide escoteiro manteve o bar fechado por muito tempo, sabe-se lá por falta de que documento ou propina, mas recentemente ele reabriu, enchendo os nossos corações de genuína alegria. Eu tive a sorte de estar lá na noite da reabertura, quando compartilhei com companheiros de fé uma ótima porção de moela acebolada e algumas cervejas. Falando nisso, o cardápio é impecável. Ainda não provei tudo mas, antes do bar ser fechado, era possível saborear, além da moela citada, língua defumada, fígado e sardinha à milanesa, além dos bolinhos de bacalhau, empada de camarão e outros petiscos que não podem faltar em botequim que se preze. Alguns pratos bacanas também fazem parte do cardápio. Para bebericar, boas cervejas e cachaças, chopp Brahma, jaipirinha (caipirinha de saquê) ou até mesmo o nosso querido rabo de galo, que tantas noites me acompanhou em minhas andanças pela cidade. Serei obrigado a voltar lá muitas vezes para detalhar melhor os produtos.

Para fechar a tampa, o botequim tem sim dois banheiros limpos e não tem mesa de bilhar. Ah, e o tio do carreto nunca apareceu por lá mas já aviso aos estagiários do Mengele que, se aparecer, será tratado com toda a dignidade.

domingo, 8 de maio de 2011

Não é qualquer canto que se acha - por Mario Mammana

Através dos tempos, a esmagadora maioria dos nomes dos bares que conheci não guarda nenhuma relação com as características externas do estabelecimento e às vezes também com as internas, o que é mais grave. Um bar tem que dizer a que veio já no nome, sob pena de navegar pelos mares perigosos do estelionato etílico, fazendo uso de ardis para iludir os incautos, sedentos por boas novas e boas cervejas. Como toda a regra tem a sua exceção, esse não é o caso do bar “Canto Madalena” (Rua Medeiros de Albuquerque, 471). Ele encontra-se “cravado” justamente num canto de rua, que não poderia ser mais quina do que já é, sendo que ele não é um bar de esquina. Pelo menos não uma esquina convexa. É côncava. Não sei se me fiz entender, existem esquinas côncavas? Não importa. Esta não é a sua melhor característica.

Os motes do bar são o ambiente e a comida. Comecemos pelo último, só prá chatear. Comida com acento nordestino. Toda comida temática é traiçoeira mas no caso do Canto Madalena o risco é mais ameno. Na hora do almoço tem buffet. No jantar, excelentes escondidinhos, carne seca desfiada com farofa, costelinhas de porco de matar, baião de dois, porção de acarajés, arrumadinho, um mexidão nordestino que seria capaz de assentar azulejos sem argamassa, enfim, a lista é longa e boa. Além disso tudo, uma novidade bastante criativa entrou no cardápio há pouco tempo. É o contrário do escondidinho, chamado “amostradinho”, em várias versões com destaque para o de lula salteada sobre purê de banana da terra e o de ragu de rabada sobre polenta mole. Beeeem bacana!

Para acompanhar, as cervejas nacionais de praxe e um bem tirado chopp. Isso sem contar, é lógico, com uma extensa carta de cachaças de estirpe. Pronto! Nada mais é necessário.

Agora, para falar da decoração e do ambiente, é preciso empreender uma jornada memória adentro e lembrar dos detalhes que existiam nas casas de nossas avós. Pingüins de geladeira? Móveis antigos? Cristaleiras? Vasos de flores sobre toalhas de chita? Tudo isso e mais um pouco está lá, proporcionando uma sensação de conforto e aconchego bem perceptível. Afinal de contas, existe lugar mais amoroso e acolhedor do que a casa da vovó? Bem dizia o poeta Lauro Muller que o avô é o pai sem exigências e a avó, a mãe com açúcar!

Vá lá com tempo. O serviço não é um campeão de rapidez, mas também não chega a enfurecer. Sem contar que é extremamente simpático. Se possível, peça para ser atendido pelo discreto e altíssimo garçon Guina, excelente profissional que conheço de priscas eras do bar Bom Motivo e que sabe guardar todos aqueles segredos vexaminosos sobre os nossos porres do passado (quem não os tem que atire a primeira azeitona).

Como luxo extra, o bar oferece música brasileira ao vivo em alguns dias da semana e aos sábados no almoço, oportunidade em que é servida uma lauta feijoada, mas as poucas vezes em que ouvi música ao vivo lá, preferia não ter ouvido. Esse item precisa melhorar. Todo o resto compensa com sobras.

Ressalto por fim que não se trata de um bar de comida típica, razão pela qual conserva suas boas características. Talvez seja apenas um bar de comida brasileira e ponto. Por isso termino parafraseando Gilberto Amado, dizendo que “quem não gosta do Brasil não me interessa”.